Negril
Conheci o Negril - ainda em forma embriônica - em 1989, quando procurava pautas sobre o Rio para um programa da BBC. Na época chamava-se KMD5 e estavam ensaiando num quartículo escuro sob sol de 40 graus em Belfort Roxo, bairro da Baixada Fluminense.
Lembro até hoje do suor que pingava de suas caras. Virando a esquina havia outra banda também ensaiando - Lumiar - que logo depois se tornou "Cidade Negra", assinou contrato e o resto faz parte da história contemporânea da música popular brasileira.
O que estava acontecendo era um verdadeiro movimento de reggae carioca - eu sentia que tinha caído de pára-quedas em Kingston, Jamaica - só que ali em Belfort Roxo, a barra era talvez mais pesada. Logo antes da BBC gravar entrevista com o então Lumiar, um dos integrantes tinha vivido o assassinato de vários parentes pela chamada "polícia mineira".
Vibrei muito com o sucesso do Cidade Negra - afinal eu sei de onde eles vêm - e torcia muito para acontecer algo parecido com seus companheiros de esquina. Afinal os caras tocavam muito bem, e Dida - o guitarrista - escrevia belas letras.
Agora eles gravam seu primeiro disco pela BMG - com a voz de veludo do cantor Valnei Ainê. E arranjos poderosos para o seu reggae / pop da periferia. Aliás o movimento reggae da Baixada cresceu bastante - de lá também vieram vários membros de o Rappa, inclusive o baterista Yukka - originalmente do KMD5. Ele é co-autor de música "BF" que aparece neste disco do Negril com um belo arranjo que faz desta canção quase um lamento para uma região que até hoje tem uma imagem tão barra pesada. As ligações entre as 3 bandas não acabam aí - os baixistas do Negril, O Rappa e Cidade Negra são irmãos - uma família que nasceu com os graves na veia e De Gama do Cidade Negra compôs a bela contudo "Um só coração".
Eles não perderam estes dez anos - o sucesso do Cidade Negra e em seguida do Rappa criaram novo animo no bairro e nas mãos dos integrantes do Negril surgiu um centro cultural, com aulas de berimbau, percussão e arte para jovens moradores. Os próprios traficantes do bairro tem encaminhado os filhos para lá - querendo outra vida para seus herdeiros.
Que venha muito sucesso com este disco - os Caras já batalharam muito, mas nunca ficaram amargos. Só assim se explica uma letra tão ingenuamente positiva como "Na Moral" - como cover hit "Simmeer Down" - escrita pelo baterista Cosme dentro de um Pesque e Pague com um tiroteio rolando solto lá fora. Eles convivem com a mesma violÊncia da periferia que os rappers paulistas, mas o jeito carioca de falar sobre o assunto acaba gerando uma música mais positiva, de uma revolta menos óbvia.
Parabéns para eles e para o Hebert Vianna pela produção - foi um verdadeiro ato de amor !
Lucy Needham / Jornalista
site da banda: www.uol.com.br/negril
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